A pior jornada da minha vida – 11 horas numa chapa em Moçambique

Indo na onda das mulheres mochileiras recebemos esse relato da Thaís, autora do blog Viajadora.

A pior jornada da minha vida – 11 horas numa chapa em Moçambique

Dentro da chapa, pelas estradas moçambicanas. Foto: Thaís Freitas

Dentro da chapa, pelas estradas moçambicanas.
Foto: Thaís Freitas

“Não temos carteira de motorista pra alugar um carro nem dinheiro para a passagem de avião, e assim ainda podemos ver como os moçambicanos viajam de verdade”. Foi depois dessa análise otimista da realidade feita pelo meu namorado na época que finalmente decidimos usar o sistema de transporte público rodoviário de Moçambique para cruzar os cerca de 500km que separam a capital, Maputo, de Tofo, uma das principais cidades de praia do país. “E vai ser legal, não é tão longe e, como vamos usar o shuttle do albergue, podemos conhecer um monte de gente que está viajando também”, concluiu, justificando os altos preços cobrados pelas passagens no albergue em que estávamos hospedados.

O shuttle sairia às 4 da manhã do dia seguinte, e foi num estado de semi-consciência que sentamos na van e pensamos que “não é tão ruim assim, tem até uma TV”. Cochilamos por meia hora e acordamos ao percebermos que o motorista acabava de estacionar na principal “junta” da cidade, como são conhecidos os terminais caóticos de onde saem os ônibus de viagens de longa distância. Reconhecemos o local porque tínhamos chegado lá vindos da África do Sul alguns dias antes e ficado um tanto assustados com as condições precárias de higiene, a quantidade de pedintes e os cachorros vira-lata em meio à centena de vendedores tentando, de qualquer jeito, nos empurrar desde quinquilharias made in China até copos de água cinzenta, que pegavam direto da bacia com as mãos e entregavam aos clientes. Foi lá, inclusive, que dois homens tinham tentado nos dar um golpe enquanto procurávamos por uma forma de ir para o albergue, com um deles tentando me levar para trás de um prédio e o outro oferecendo produtos para o meu namorado, então as memórias não eram mesmo as melhores.

A voz do motorista nos chamando nos tirou das lembranças e nos disse para segui-lo no meio da confusão, até chegarmos em uma “chapa”, um daqueles micro-ônibus que são a principal forma de transporte no país. “Sentem”, disse ele, apontando o interior do veículo e entregando um ticket ao motorista, para sair em seguida sem falar mais nada. Logo vimos que o tanto a mais que pagamos era apenas pelo transporte até a junta, algo que, definitivamente, não contavam para os hóspedes no albergue. Sem mais o que fazer, obedecemos. Não havia muitos assentos vagos, então me acomodei da melhor forma possível ao lado de uma senhora corpulenta, de turbante e muito vestida com roupas coloridas, espremida em uma das janelas. Como o banco era para três pessoas, meu namorado sentou do meu lado e ficou tentando enxergar onde o motorista estava enfiando nossas mochilas na confusão de embrulhos da traseira do veículo. Com as mochilas menores no colo, o vimos encher e encher até parecer que não caberia mais nada. Tinham duas pessoas sentadas no espaço do corredor, o chão estava coberto de embrulhos e uma gaiola com duas galinhas vivas aos meus pés fazia com que eu tivesse de ficar com as pernas permanentemente dobradas e suspensas para não esmagá-las.

As casinhas na estrada entre Maputo e Tofo. Foto: Thaís Freitas

As casinhas na estrada entre Maputo e Tofo.
Foto: Thaís Freitas

Justamente quando achamos que estávamos prestes a sair, entraram mais três pessoas, uma delas se sentando no nosso banco já lotado e acomodando, atrás de nós, um embrulho que impediu completamente que apoiássemos a cabeça no encosto. Enquanto abraçava minhas próprias pernas por não poder encostá-las no chão, comecei a ficar bem nervosa com a perspectiva de ter de viajar tanto tempo em posição fetal. Era o auge do verão e, às 6 da manhã, já fazia um calor de quase 40°C, e o cheiro de suor lá dentro era de lascar. Vendo a minha cara de pânico enquanto esticava o braço e tentava, em vão, abrir a janela mais próxima, meu namorado falou em tom consolador: “se as janelas não abrem, então é porque certamente tem ar condicionado aqui”. Claro… que não! Quando o motorista finalmente saiu da junta e pôs o veículo em movimento, as janelas continuavam sem abrir e o calor só aumentava. Era como estar numa sauna, mas em vez do cheiro de eucalipto, o que imperava era o cheiro azedo do suor de 23 pessoas espremidas num micro-ônibus com capacidade para 15 passageiros e cheio de embrulhos com comida e galinhas vivas.

Rodamos por cerca de uma hora desse jeito, saindo da cidade e entrando nas belas estradas rurais de Moçambique, cheias de coqueiros e casinhas bem simples de pau-a-pique. Sem poder me mexer e suando copiosamente, meu cérebro vagava por um estado letárgico, e eu me revezava entre dormitar em um tipo de transe e praguejar baixinho por estar naquela situação. Mas aquilo estava bom demais para ser verdade, ainda iria piorar. O motorista vinha tentando há alguns minutos ligar o rádio, até que conseguiu, e levamos um susto quando os alto-falantes começaram a tocar kuduro no último volume. A mistura de ritmos africanos com batidas eletrônicas, que surgiu em Angola nos anos 80 e se espalhou pela África, pode até ser divertida para dançar, mas é a última coisa que você gostaria de ouvir naquelas condições.

Foi com essa trilha sonora que seguimos pelas próximas oito horas, sem conseguir dormir para passar o tempo, sem espaço para ler e impossibilitados de conversar por causa do barulho. O motorista não baixava o volume nem mesmo quando parava nas cidadezinhas pelo caminho, para conversar longamente com conhecidos ou descarregar e buscar novos passageiros. A cada parada para ir ao banheiro, nos esticávamos dentro do possível e era uma dificuldade voltar à posição inicial, e única possível, em que nos havíamos acomodado.

Parada para respirar na estrada. Foto: Thaís Freitas

Parada para respirar na estrada.
Foto: Thaís Freitas

Hoje posso dizer que, se teve uma coisa que eu aprendi com essa viagem, é que definitivamente, nada é tão ruim que não possa piorar. Quando já estávamos quase acostumados com o barulho, o calor, o aperto e o mau cheiro, o destino nos mostrou que tinha outra surpresinha. A moça sentada ao meu lado, que se abanava sem parar e me contou toda a sua vida nos primeiros minutos de viagem, de repente começou a suar mais ainda. E a ficar pálida, e depois meio esverdeada. Colocou rapidamente as mãos sobre a boca, mas não conseguiu conter o vômito, que caiu bem na cabeça da mulher sentada na nossa frente e no meu colo. Não resisti e comecei a chorar, o motorista parou num posto de gasolina na beira da estrada para que a gente se limpasse da melhor forma possível, sem muito sucesso. E assim seguimos pelas duas últimas horas de viagem, sujos e em meio a um cheiro que nunca tinha sentido antes e espero nunca sentir de novo.

Na chegada à vila de Tofo, um outdoor ensina os gringos a pronunciar o nome da cerveja local em Português. Foto: Thaís Freitas

Na chegada à vila de Tofo, um outdoor ensina os gringos a pronunciar o nome da cerveja local em Português.
Foto: Thaís Freitas

Ao finalmente chegarmos na vila de Tofo, crianças cercaram o micro-ônibus vendendo frutas e água. O motorista abriu a porta e ao sair imaginei que aquela era a mesma sensação que um bebê deve ter depois de nascer de um parto  complicado. Dizem que o sofrimento em grupo aproxima as pessoas e isso foi verdade no nosso caso, já que acabamos por conversar longamente com boa parte dos passageiros, impressionados com o fato de sermos gringos, mas fluentes em sua língua natal e estarmos viajando dessa forma com eles. Foram as 11 horas mais longas da minha vida, mas valeram cada minuto quando mergulhamos nas águas morninhas nas praias banhadas pelo oceano Índico em Tofo. E como toda boa história traumática de viagem, agora, anos depois, ainda rende boas lembranças e gargalhadas.

Cenários de Tofo. Foto: Thaís Freitas

Cenários de Tofo.
Foto: Thaís Freitas

Depois da viagem na chapa, tomando o melhor banho de mar da minha vida, na praia de Tofo. Foto: Thaís Freitas

Depois da viagem na chapa, tomando o melhor banho de mar da minha vida, na praia de Tofo.
Foto: Thaís Freitas

Acompanhe essa e outras histórias da Thaís no blog Viajadora e na fan page no Facebook.

Anúncios

Sobre Vagabundo Profissional

“Muitos pensam que sou rico. Outros pensam o contrário. O que ninguém sabe é que minha riqueza é medida em histórias, em experiências e pessoas. Sim, sou rico. Porque viajei o mundo sem um único centavo no bolso. Sim, sou rico. Por causa das pessoas que conheci. Mas acima de tudo, sou rico, por que descobri o verdadeiro significado da vida.” (Fergal Smith)
Esse post foi publicado em Experiências, O viajante é você.. Bookmark o link permanente.

3 respostas para A pior jornada da minha vida – 11 horas numa chapa em Moçambique

  1. Suas aventuras são sensacionais. Viajo junto. E 11 horas, que coisa. Senti aqui o pó e a canseira.

  2. mariyusim disse:

    Que aventura!! Adorei o post e também o blog da Thaís! Excelente dica!

  3. Nossa eu passei pela mesma situação Thais! Fui lendo seu post e revivendo as cenas que além dessas que você citou, outras como quando uma criança queria fazer xixi mas ela estava lá no fundo e para todos não se levantarem, o menino foi passado de mão em mão, tipo num show de rock. hahaha e você teve sorte porque quando eu peguei a chapa só pararam uma vez, em chidenguele e nunca mais! O aperto, calor, cc..nossa me lembro muito bem! Mas a praia de Tofo é lindaaaaaa e as pessoas tão simpáticas. Principalmente quando uma “asiática” abre a boca e começar falar português! xD Parabéns pelo post! ^^

Comente no Vagabundo Profissional

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s