Quando se ama viajar.

Quando se ama realmente viajar, podem reparar, há traços que nos acompanham desde quando começamos a ter nossas primeiras experiências cognitivas do mundo. Me lembro antes dos 5 anos folhando atlas, fascinado pelas fotos de satélite e imagens dos planetas e estrelas por dentro, com seus imensos núcleos e tudo mais. Um pouco mais velho, decorando bandeiras, capitais, questionando o porquê da bandeira de Bangladesh, tirando a cor, ser igualzinha a do Japão. O mundo, pra não falar o universo, sempre me chamou muita atenção, não era a toa que demonstrava um interesse maior também nas aulas de geografia, que, ao contrario do pesadelo da matemática, sempre me saia bem. Lembro que gostava de fotos das paisagens, e nessas imagens tinha um lugar que sempre me marcava muito: um lago azul incrível situado entre montanhas imensas com neve. Era surreal. Um dos meus sonhos de infância passou a ser então o de conhecer esse lugar.
Porém, como acontece com a esmagadora maioria das crianças conforme vão crescendo e se tornando adolescentes e adultos com “responsabilidades”, comecei a ter os meus sonhos reprimidos por uma sociedade e cultura que nos ensina a seguir o modelo, o padrão estabelecido, onde você se torna mais um, e, não apenas isso, te leva a acreditar que o ‘ser mais um’ é o modelo ideal, seguro, e tudo que saia fora disso é loucura e irresponsabilidade, ainda mais pra quem figura em algum nível intermediário da classe média.
Pois é meus amigos, a criança que gostava de bandeiras e planetas se transformou em mais um servo contemporâneo, acreditando piamente na segurança de ‘ser mais um’ e, a partir disso, começar a reprimir a “loucura” de se jogar no mundo, afinal precisava me sustentar, pagar minhas contas e construir uma carreira.

Foto: Giovan Toledo

Foto: Giovan Toledo

A questão é que o mundo gira, a voz dentro de você se torna mais forte e a própria natureza colabora para que nós sejamos o que somos destinados a ser, a natureza coopera, se reinventa se for preciso, quando se trata de vivermos os nossos sonhos, pois é assim, só assim, plenos e satisfeitos, que verdadeiramente colaboramos com o mundo. Acredito que é uma troca, a natureza nos ajuda para que nos a ajudemos. Para que tenhamos essa colaboração, precisamos ter confiança na vida e em nós mesmos, para superarmos as prisōes que contruímos através de crenças e dogmas que nos foram impostos de todos os lados por uma cultura materialista, acumulativa, auto-destrutiva e doente.
A natureza colaborou comigo no sentido de abrir a minha mente pra infinitas possibilidades que existe em tudo e em cada escolha, me dando energia suficiente para não ficar preso nos tantos medos que aprendemos não só a ter, mas também a alimentar, para muitos, infelizmente, durante toda uma vida.
Mas isso não aconteceu sem que antes eu me visse extremamente descontente com a rotina que levava e com as perspectivas que essa vida me trazia. Onde estavam os horizontes, as estradas, as montanhas, os lagos? É como se eu precisasse realmente sentir o que não queria para poder seguir em direção ao que sempre quis.
Me libertei desse ciclo vicioso quando pedi demissão do meu emprego e vendi o meu carro, um gol 1.0, que me deu condiçōes de planejar o inicio de uma viagem ao Canada, para viver em Toronto por 1 ano, logicamente trabalhando em algo que me capacitasse o suficiente para comer, dormir e, porque não, viajar mais?

Em outubro de 2012, 3 meses após ter chegado no país, depois de limpar depósitos e conseguir fazer algum dinheiro com isso, comprei uma passagem de ônibus de Toronto para Vancouver, uma viagem de 4.300 km cruzando o Canada, com uma parada de 4 dias em Banff, província de Alberta, região das montanhas rochosas. O inverno ainda não havia chegado mas nessa região a neve chega cedo, o que deu uma característica ainda mais única às paisagens. Foram 4 dias que me fizeram voltar a ser criança, me fizeram sentir o mesmo entusiasmo que sentia quando via aquelas fotos de lagos e montanhas e imaginava como seria conhecer tudo aquilo. Lá estava o lago, o Lake Louise, imenso, imponente, tão surreal quanto há 20 anos atrás, não tão azul turquesa como no verão e como nas fotos do atlas, mas ainda assim único pela paisagem proporcionada pela neve. Tons azulados e cinzas se misturando com a imensidão branca. Era incrível simplesmente ESTAR lá. E estando lá senti uma imensa gratidão pela vida, que muitas vezes pode parecer caótica e totalmente sem sentido, mas que na verdade só esta esperando o menor sinal nosso para se reorganizar inteira ao nosso favor, de uma forma que não nos deixa duvida quanto a sua beleza.

Portanto, continuemos acreditando, pois “caminho se conhece andando”.

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Sobre Vagabundo Profissional

“Muitos pensam que sou rico. Outros pensam o contrário. O que ninguém sabe é que minha riqueza é medida em histórias, em experiências e pessoas. Sim, sou rico. Porque viajei o mundo sem um único centavo no bolso. Sim, sou rico. Por causa das pessoas que conheci. Mas acima de tudo, sou rico, por que descobri o verdadeiro significado da vida.” (Fergal Smith)
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2 respostas para Quando se ama viajar.

  1. Karen Duarte disse:

    Adorei o texto, ótima colocação, entendo perfeitamente o que está falando. Também amo viajar e escrevo sobre viagem.
    Abraços.

  2. Ainda estou preso na rotina esmagadora, dançando a música desafinada da orquestra do sistema… admiro sua coragem de ter “largado tudo” para viver um impulso incerto. Que um dia eu também siga minha intuição e não apenas minha necessidade por segurança.

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