As maravilhas de viajar sozinho.

Não bastasse ter uma enorme dificuldade em conversar com pessoas desconhecidas, pouca prática com o inglês, um espanhol praticamente inexistente, quando resolvi pedir as contas do emprego para fazer um “mochilão” de dois meses na Europa, eu nunca, jamais, never tinha viajado sozinho pra lugar algum. Ever.

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Quando falava sobre minha decisão de viajar, meus amigos me chamavam de louco e idiota. Diziam que eu ia virar mendigo na República Tcheca. Minha mãe rezava o terço sete vezes ao dia pedindo à Virgem que não deixasse que seu caçula se perdesse durante sua jornada solitária. Meu pai não cansava de dar conselhos protecionistas do tipo “vê lá com quem você vai se meter”. A aflição era geral.

Os que já tinham feitos as suas loucuras me incentivavam. Um amigo colombiano do meu irmão, que já perambulou pelos quatro cantos desse mundo, disse que eu era o “héroe” dele. Nem tanto. Outros me tranquilizavam, dizendo que eu ia fazer amigos por lá, conhecer uma turma bacana nos hostels. Será? Eu contava com isso, mas quando levava em conta as problemáticas apresentadas no primeiro parágrafo, tinha minhas sinceras dúvidas.

Na primeira experiência finalmente sozinho (antes havia estado com uma prima em Amsterdã), suei frio no hostel onde me hospedei. Não conversei com ninguém. Tinha vergonha até de pedir para o recepcionista repor a manteiga do café da manhã. Mas, aos trancos e barrancos, sobrevivi.

Isso foi um dia antes de encontrar alguns amigos na Alemanha, os últimos conhecidos no Velho Continente até a chegada a Barcelona, prevista para 20 dias depois. Durante este período, minha jornada seria 100% solitária. Por isso, eu sabia que teria que começar a me soltar e conhecer pessoas, se não ia acabar me sentido tão isolado como o Amyr Klink em meio aos pinguins da Antártida.

O começo foi hilário. Numa tentativa desesperada de vencer minha timidez, eu forçava diálogos com Deus e o mundo. Puxei assunto até com as imagens de santos que decoram a ponte Carlos, em Praga. Isso me rendeu situações tragicômicas, como quando tentei conversar com uns vikings no trem a caminho de Copenhague e fui solenemente ignorado ou quando tentei trocar umas ideias com uma gatinha nas ruas de Veneza – detalhe: em italiano! – e fui novamente deixado de lado.

Foram tentativas frustradas, mas que pelo menos ajudaram a me soltar.

Ainda na cidade alagada, voltando ao hostel encontrei uma garota que fazia check in. Não perdi tempo. Mesmo cansado, sujo e fedido dei a cara a tapa: “where are you from?” (é assim que se iniciam 99,9% das conversas em hostels). Descobri que se tratava de uma chilena chamada Javiera. Expliquei, na cara de pau, que falava um pouco de espanhol (se é que um ano de curso no Senac poderia me render um nível suficiente para dizer que falava “um pouco” de qualquer coisa). Mesmo assim, o papo colou. Ao longo do dia que passamos juntos em meio a canais e ruelas, o idioma utilizado foi o de Pablo Neruda, claro que numa versão simplificada pela minha nova amiga.

viagem

Ao voltarmos ao hostel, encontramos mais uma turma conversando. Claro que segui a toada e resolvi puxar assunto. Logo já havia um grupo para sair à noite e tomar uma cerveja: Javi, eu, o guatemalteca Alejandro, o americano Ian e o brasileiro (sempre há um) Otto. Ótima diversão.

No dia seguinte, o brazuca e o americano tiveram que ir embora, mas foram substituídos pela carioca Carol e pela lindíssima Zane, da Letônia, que eu havia conhecido na sempre demorada fila para o ÚNICO banheiro do hostel. No final, a troca se mostrou tão vantajosa quanto o famoso “cambio” de jogadores entre Corinthians e Palmeiras, em que o primeiro cedeu os pernas-de-pau Ribamar e Dida ao seu arquirrival para trazer o obscuro Denys e o que viria se tornar mito no Parque São Jorge, Neto.

Entramos em uma sintonia fantástica. Não havia discussões, brigas, nem mal-entendidos. Éramos apenas uma turma de recém-conhecidos que queria se divertir – e nos divertimos muito! Andamos para lá e para cá tirando fotos, rindo, conversando, comendo e bebendo. Um olhava para o mapa e decidia o lugar para conhecer e todos acatavam. Quando nos perdíamos, sempre tinha um que pagava o mico de arranhar um italianol, portuliano ou italianenglish para perguntar informações. Dessa maneira vivemos situações hilárias, como na famosa compra do sorvete.

A Carol havia pedido que eu lhe comprasse um sorvete. Eu já tinha comprado o meu e para segurar o outro, apoiei minha carteira em cima do balcão e saí feliz da vida com duas casquinhas nas mãos, indo encontrar meus amigos que haviam pegado uma mesa ali por perto. Quando entreguei o sorvete para a garota, notei que faltava alguma coisa comigo.

Minha carteira não saía nunca da minha cintura – trata-se de parte do método de sobrevivência urbana dos paulistanos. E logo que entreguei o sorvete, senti que estava faltando alguma coisa comigo. Quando me dei conta, entrei em pânico. Na minha carteira estavam simplesmente dinheiro, meu documento de identidade português e meu cartão Visa Travel Money, ou seja, TUDO o que era de essencial para a viagem. Sem ela, era dizer adeus à aventura e se preparar para virar mendigo em Praga – ou, no caso, Veneza.

Pedi para a Carol pegar a outra casquinha e saí correndo tentando resgatar minha carteira. Pelo incrível que pareça, logo que voltei à sorveteria encontrei minha carteira ali, intacta, ainda em pé em cima do balcão, como eu a havia largado. Um milagre de San Genaro!

Ao voltar à mesa, o pessoal ria às gargalhadas. Antes mesmo que eu pegasse minha casquinha de volta, o Alejandro, roxo de tanto rir, fez questão de tirar uma foto minha com meu troféu. Como éramos quase todos latino-americanos – com exceção da Zane – começamos a imaginar quanto tempo demoraria para que a carteira sumisse se estivéssemos em nossos países. Ótima diversão, apesar do susto.

Mas não foram apenas as risadas que transformaram essa turma em algo tão especial.

Àquela altura, eu simplesmente precisava aprender a me virar sozinho, e meus amigos de Veneza foram prova de que meus esforços estavam dando resultado – positivo até muito além do esperado. Por um ou dois dias, aquelas pessoas foram meus melhores amigos. Até hoje tenho os contatos deles no Facebook. Com a Javi ainda segui viagem por mais duas cidades e nos encontramos em Barcelona, quase um mês depois. Aos invés de meros companheiros de viagem, fiz verdadeiros amigos.

Depois de Veneza, não tive um momento ruim sequer nos quase 40 dias que ainda me restavam de viagem. Ganhei confiança de falar inglês e portunhol, sóbrio ou bêbado, para puxar assunto com desconhecidos de todos os lugares, para me perder e me reencontrar em cidades desconhecidas, para não ter medo de seguir adiante.

Agora, eu simplesmente estava pronto para o resto da viagem.

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Essa confiança rendeu frutos inesquecíveis que fizeram dessa uma das melhores viagens da minha vida:

Boa parte dos truques de viajar sozinho aprendi com um brasileiro de Pirassununga que conheci em Copenhague; cheguei em Lisboa acompanhado de uma canadense que conheci no trem; visitei Sintra com um sul-africano que conheci durante um “pub crawl” na noite anterior e duas canadenses que conheci enquanto tomava café da manhã no hostel; algumas pessoas da turma que formamos num hostel em Granada foram me visitar em Lisboa, para onde eu estava indo morar. Minhas grandes lembranças do “mochilão” envolvem mais as pessoas que conheci do que os lugares que visitei.

Aqui no Brasil, repeti a dose indo a Paraty e Ouro Preto apenas com a minha mochila como companhia. O resultado, é claro, foram momentos de muita diversão e novas amizades.

Agora olho para trás e vejo o quanto as minhas preocupações, e as de meus amigos e familiares, eram exageradas. Descobri que com apenas um pouco de esforço a viagem nunca fica solitária. Viajar sozinho é a oportunidade de descobrir em si mesmo qualidades que ficam escondidas sob a preocupação de se adequar ao comportamento de um grupo do qual já pertencemos. Sozinhos somos nós mesmos na essência, dando a oportunidade de tornar uma viagem dessas num momento tão singular de nossas vidas.

Acompanhe outras histórias no blog Aconteceu na Europa.

Texto: Flávio Dagli (Publicado com autorização do autor)

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Sobre Vagabundo Profissional

“Muitos pensam que sou rico. Outros pensam o contrário. O que ninguém sabe é que minha riqueza é medida em histórias, em experiências e pessoas. Sim, sou rico. Porque viajei o mundo sem um único centavo no bolso. Sim, sou rico. Por causa das pessoas que conheci. Mas acima de tudo, sou rico, por que descobri o verdadeiro significado da vida.” (Fergal Smith)
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8 respostas para As maravilhas de viajar sozinho.

  1. naishacamara disse:

    Republicou isso em naishacamarae comentado:
    Eu adoro viajar e fiz doutorado com o professor Michel Maffesoli gosto de vagabondages

  2. Fiz o mesmo pela America do Sul, sem roteiro e sem expectativas… Descobri que o mundo esta repleto de pessoas boas dispostas em ser humano.

  3. Mateus disse:

    Esse depoimento é um belo incentivo pra se ingressar em uma viagem sozinho. Muito bom…estou em processo de tomar essa iniciativa, pois o desejo é grande por viajar, mas nem sempre tem pessoas com as mesmas idéias e tempo livre para se fazer uma viagem contigo e ainda com os mesmos desejos.
    Abraçø

  4. História muito legal! Me fez recordar com saudade dos amigos que fiz na África do Sul, lugar para o qual também fui sozinha e do qual nunca me arrependerei 😀

  5. Irei fazer minha primeira viagem sozinha no final do ano. Estou em contagen regressiva…
    Seu depoimento foi aquela dosagem de incentivo. Valeuuuu!!!

  6. Quando se está sozinho parece que o mundo é maior, conversar com estranhos é tão enriquecedor (esqueça o conselho da sua mãe, mas continue não bebendo no copo dos outros) e perder-se é oportunidade de descobrir um novo caminho (mas sem perder seus documentos), só sei que eu quero mais!

  7. Embarco para o Canadá em agosto, sozinha. E os primeiros parágrafos do texto são coisas que mais ando escutando nos últimos tempos.
    É esse tipo de “incentivo” que precisava! É bom ler esses relatos, dá um up 😀

    Ótimo blog! 🙂

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