Sobre a experiência de dar aulas em uma escola para monges na Tailândia

Sentada em uma mini van que balança sem parar em meio a buracos de uma estrada de chão eu vejo a escola de monges ficando para trás, um lugar que há dez anos era apenas mato e hoje parece mais com uma floresta que foi plantada pelas mãos de muitos dos monges que vivem lá até hoje. Trago comigo recompensas intangíveis e do que é físico posso dizer que dois livros que acabei de receber dos monges como uma forma de agradecimento pela minha ajuda. Isso soa tão engraçado. Eu era a pessoa que deveria ter comprado uma biblioteca de agradecimento a eles. Gostaria de poder dizer que os recebi das mãos dos monges, mas isso jamais aconteceria porque os costumes budistas não os permitem tocar em uma mulher. Havia um pano de crochê laranja nos separando e nesse momento eu li na capa do primeiro livro “O ocidente encontra o oriente”. Não haveria outro título que resumisse melhor essa experiência.

Antes de chegar lá, nem eu mesma sabia para onde exatamente eu estava indo. Mas cheguei preparada com muito respeito, curiosidade, com a cabeça aberta e disposta a não julgar, mas sim aprender. E é com esse mesmo propósito que convido vocês a viverem um pouco dessa experiência comigo. Esse lugar é uma escola onde crianças e adolescentes estudam, moram e vivem de acordo com os preceitos budistas que são muito rígidos. Muitos dos professores são monges que moram na escola, existindo também funcionários leigos que tem a opção de morar lá ou não. Os noviços estudarão na escola até terminar o que seria equivalente ao nosso Ensino Médio e aos 20 anos finalmente realizam o sonho de se tornarem monges e seguirão para a universidade. Essa escola é gratuita – mantida por doações – e posso dizer que a infra-estrutura deles deixaria para trás muitas escolas particulares no Brasil. A minha sorte foi poder ter um quarto com ar condicionado e um chuveiro com água quente. Luxo.

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No Budismo as pessoas comuns devem seguir 5 preceitos, que são como os mandamentos na religião católica. Os budistas que praticam a meditação com mais intensidade seguem 8, os monges noviços 10 e os monges 227 no total. Isso quer dizer que estas crianças aceitam viver suas vidas até os 20 anos de idade, obedecendo as seguintes regras: não matar nenhum ser vivo, não roubar, ser casto, utilizar linguagem adequada, não beber bebidas alcoólicas, não comer depois do meio-dia, não participar de atividades de entretenimento, não embelezar o corpo, não dormir em leitos elevados ou luxuosos e não aceitar ouro ou dinheiro.

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Durantes esses quatro dias eu não ensinei o inglês propriamente dito como se espera de uma professora, com suas regras e explicações gramaticais. Estávamos todos muito curiosos quanto as nossas diferenças e é na curiosidade que mora o verdadeiro aprendizado. Respondi perguntas sobre a Floresta Amazônica, piranhas e tucanos. Coisas que eles leram nos livros. Expliquei sobre como conseguimos comer arroz com garfo e que a nossa língua é o português. Não poderia deixar de falar sobre futebol, samba e Rio de Janeiro. Eles queriam saber se eu já tinha escalado uma montanha ou se eu já tinha visto um dragão-de-komodo. Eu fui como uma janela para o mundo.

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Eu estava curiosa para saber o motivo que os levaram a escolher serem monges tão cedo. A resposta era óbvia para eles. Eu escutei crianças de 12 anos me explicando que eles gostariam de ser felizes, meditar, querem dar esse orgulho a seus pais e carregar consigo o mérito de ser monge. Eles buscam acima de tudo a felicidade que a vida como monge traz. Essa foi uma escolha própria de mais da metade dos noviços que eu questionei e o restante disse que os pais os propuseram essa opção. Nesse momento eu fervia por dentro, queria saber se eles estavam felizes com a escolha ou se era difícil para eles se adaptarem. As tradições não me permitiram, mas mesmo assim saí dali impressionada com a sobriedade destas crianças.

Além de dar as aulas, pude participar como convidada da cerimônia do Dhamma Day, que é a celebração da primeira palavra de Buda. Ao final de uma bonita prece fomos todos para um ponto mais alto da escola e foram lançados ao céu mais de 30 balões iluminados por uma vela, uma forma de agradecimento a Buda. Foi uma das imagens mais bonitas que eu já vi. Monges. Noviços. Lua Cheia. Velas. Balões. Um céu iluminado por eles. Nesse momento percebi que a nossa busca é a mesma e na essência somos todos iguais, com os mesmos medos, esperanças e desejos. Não importa se você é monge, noviço, criança, adulto ou idoso. Queremos todos encontrar a felicidade, orgulhar nossos pais e ter consigo o mérito de ter feito alguma coisa boa nessa vida. O que nos diferencia são os caminhos que escolhemos para alcançar esses objetivos. E não existe caminho único ou uma formula secreta. Temos limites diferentes e cada um sabe do que abriria mão para ser feliz. Cada um dá um valor diferente a sua busca. Estes jovens abrem mão de tudo o que para nós é sinônimo de felicidade e dizem encontrá-la justamente na ausência e na simplicidade.

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10 respostas para Sobre a experiência de dar aulas em uma escola para monges na Tailândia

  1. Claudio Mello disse:

    Excelente transmissão de sentimentos vividos. Isso nos faz também “viver um pouco disso” mesmo que à distância.

  2. Que experiência linda! Imagino o quanto você aprendeu com isso, o quanto vai levar de ensinamentos dessa experiência por toda a vida. Mesmo tendo transmitido a história muito bem, com certeza não chega aos pés do que é realmente ter vivido isso 🙂 adorei!

  3. Beatriz Fernandes de Amorim disse:

    Surpreendente e magnifico todo o texto de Leticinha Mello: -“O que nos diferencia são os caminhos que escolhemos para alcançar esses objetivos. E não existe caminho único ou uma formula secreta. Temos limites diferentes e cada um sabe do que abriria mão para ser feliz.”
    Parabéns Leticinha, puro sentimento.

  4. Minha nossa, que coisa, que coisa, que coisa… simples. Obrigado

  5. como conseguiu essa oportunidade haha? também quero !

  6. Orcelia disse:

    Ameiiii sei texto ..maravilhoso….

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