Uma aventura em Estocolmo

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Não posso me gabar da minha memória. Muito frequentemente me esqueço até de lembrar. Mas eu me lembro muito bem de uma garotinha que olhava fascinada para o mapa do mundo. Mesmo agora sou capaz de lembrar do fascínio com que lia histórias que se passavam em lugares distantes, muito longe, em outro mundo. Ainda hoje, se fechar os olhos, enxergo a garotinha com uma cenoura na mão e a cabeça a viajar com o autor do livro. Até abrir um livro tudo o que ela conhecia era o calor do Brasil. A cultura do povo brasileiro. O sabor do arroz e do feijão. E a moeda tinha o valor do pão. Dez pães, um real. Simples. Ao iniciar a leitura ela se transformava e se transportava. No mundo da imaginação não há barreiras físicas e ninguém precisa aguardar na fila para embarcar. O tempo passou e me esqueci de muita coisa. Mas aquela garotinha não me deixa esquecer da curiosidade com que lia sobre a América do Sul, do Norte e a Europa. Ao ler Shogun ela se deparou com uma cultura tão diferente e desde então o Japão não se resume a sushi e sashimi. Após Hotel Ruanda a África não é mais apenas o habitat natural de animais selvagens e o presente de aniversário que ganhou do pai, um livro sobre o Egito, demonstrou que as pirâmides não revelam todos os segredos da humanidade escondidos por milhares de anos.

De tanto ler, de tanta curiosidade, só imaginar não era o suficiente e ela sentia uma necessidade enorme de se movintar. Como o diretor de um filme sua cabeça ordenava: AÇÃO!

Sem poder e sem querer, a garotinha se rendeu aos encantos do universo que a chamava para uma apresentação. Ela arriscou a sorte e a vida saltando de bung jump na Nova Zelândia, saboreou lagostas em Miami, dançou tango na Argentina, de presente ganhou sardas em Punta del Este, assistiu ao por do sol na Patagônia e agora encontrou a chave para viajar mais por menos na Europa: Ryanair.

Quem procura acha e a garotinha achou! Achou uma passagem de Amsterdam para Estocolmo por 60 euros, um sofá no Couchsurfing e a cidade encantadora. Descobriu que viajar sem planejar cada detalhe pode ser encantadoramente trágico. A parte que encanta se deve às surpresas agradáveis no meio do caminho e a parte trágica…ah é de se esperar que por 60 euros o avião pouse à uma hora e quarenta de Estocolmo, que a pessoa que se diz disponível no Couchsurfing mude de idéia no último dia e que a cerveja custe 9 euros. Ou nao?

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Vinte e quatro horas antes de embarcar a gorotinha recebe uma mensagem da pessoa que a hospedaria em Estocolmo dizendo que algo imprevisto aconteceu e que não poderia hospedá-la. Com um pedido de desculpa termina a mensagem dizendo que espera que ela tenha um plano B. Metade da garotinha desejava matá-lo e a outra metade ria escandalosamente. Se nem plano A tem, imagina plano B! Mas sorte ela tem e consegue outro sofá para se hospedar no mesmo dia que inicia viagem. Aliviada por saber que tem onde dormir aterriza em Estocolmo com a alma leve como pena. Leve e um tanto pensativa . O capitão anuncia que vai aterrizar e nos dez minutos seguinte tudo que se vê pela janela é vegetação. Cadê Estocolmo? A foto que viu nos livros não confere com o cenário. Sr. Capitão, tem certeza de sua rota?

Os aviões da Ryanair aterrizam no meio do nada, em algum lugar da Suécia, chamado Estocolmo só para garantir impostos de companhias aéreas. Não há outra explicação.

Mas ela gosta mesmo é de surpresas e que surpresa ao pagar 27 euros pela viagem de uma hora e quarenta até o centro de Estocolmo. Outra surpresa ao perceber que o sol se deixava esparramar passivamente pela cidade inteira. Uma surpresa a mais ao comparar o preço da cerveja com o da passagem do ônibus. Como os motoristas sobrevivem em Estocolmo? Certeza que são abstêmicos.

Ao ler livros sobre a Escandinávia a mente da garotinha se enchia com imagens de vikins desbravando mares e voltando para suas casas que se congelavam no inverno. Ao crescer ela deixou de associar a imagem da Noruega, Dinamarca e Suécia aos homens com trança na barba e aceitou a ideia de que agora as pessoas praticam windsurf nas águas geladas que um dia foram palco de disputas territoriais e concluiu que quando o sol brilha é impossível relacionar vikins encardidos com os suecos que correm ao seu lado. Nunca foi tão fácil perder o fôlego. Nem tão agradável. Com ou sem fôlego, decidiu que a melhor maneira de conhecer Estocolmo seria caminhando e fiel à sua decisão caminhou por dois dias inteiros. No meio do caminho tomou café, tirou fotos e fez piqueniques. Quem se importa de se alimentar ao ar livre, embaixo de sol e rodeado de gente que faz o mesmo só pelo prazer de aproveitar bem o dia? Se é jovem e visita a Escandinávia com a alma aberta e o bolso vazio recomenda-se que leve mochila. Vai abastecê-la com sanduíches e algo de beber mais rápido do que imagina. Se é amigável vai fazer amizade facilmente e se tiver a mesma sorte da garotinha vai se apaixonar pela cidade. E não vai ser por ouvir bossa nova na casa em que se hospedar ou por conhecer pessoas encantadoras tão longe de casa. Vai se apaixonar ao perceber que as figuras que viu nos livros não correspondem com as imagens que tinha na cabeça porque a realidade é muito melhor.

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Uma resposta para Uma aventura em Estocolmo

  1. priscila medeiros disse:

    concordo plenamente! também tive o imenso prazer de me apaixonar pela Suécia!

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