Meia-noite em Paris

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O que me encanta na arte de viajar é conhecer o desconhecido, não importa onde.

Não sei você, mas minhas viagens começam na minha cabeça. Antes de partir já esboço formas, figuras, cheiros e pessoas que vou conhecer. Holanda é um moinho de vento, com flores colorindo o ambiente e um duende que saltita se prestar atenção. Bélgica é uma casinha de chocolate com cerveja jorrando das torneiras. Polônia é uma senhora melancólica, com nariz inquilino, cheia de histórias interessantes para contar. Alemanha é um gorducho vestindo avental, com ambas as mãos ocupadas, uma segurando uma jarra de cerveja e outra equilibrando uma salsicha roliça num espeto enquanto as botinas pretas levantam poeira do chão. Inglaterra é uma figura que se forma a partir de um bigode, charuto e um pub parcilamente iluminado com cores que variam entre vermelho e amarelo. E França é um coração, quero dizer, uma dama com chapéu na cabeça e um belo acompanhante a lhe servir o melhor champanhe em Champs Elysee.

Claro que o mesmo lugar causa efeitos diferente nas pessoas e é por isso que não basta ler relatos e ouvir histórias sobre viagens, melhor é colocar a mochila nas costas e conferir por você mesmo.

Sendo assim, deliberadamente esqueci que me disseram que Paris é a cidade dos amantes, que festa quando acontece é em casa e que se for jovem o bastante, vá a Barcelona. Decidi ir à Paris vazia e encher a mochila de opiniões somente após conhecer a cidade por mim mesma.

Após sete horas na estrada chegamos em Paris. Confesso que após minha experiência viajando de ônibus da Pôlonia à Alemanha o percurso que fiz da Holanda à França foi uma agradável surpresa. E um teco de coragem.

Em posse de bilhetes de metro, não tivemos dificuldade alguma para encontrar nosso albergue. Bem localizado e com quarto quase privativo, pagar 15 euros por noite nos fez sorrir da nossa esperteza. Respiramos aliviadas ao abandonar as mochilas no quarto e sair para desbravar Paris como perfeitas turistas: câmera no pescoço e dinheiro suficiente para não morrer de fome.

Nós visitamos a Torre Eiffel, Museu do Louvre, Catedral de Notre Dame, Arco do Triunfo, Champs-Elysées, Basílica de Montmartre, Sainte Chapelle, Castelo de Versailles, Galeria Lafayette, Opera Garnier e muito mais em dois dias e meio.

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Basílica de Montmartre

Após jantar e relaxar com amigos no domingo à noite voltamos ao albergue mas com a sensação de dever não cumprido. Não importava que era domingo santo e que após uma longa viagem e um dia extremamente produtivo melhor seria dormir. Nós queríamos mais, muito mais! Cade o champagne e o acompanhente ideal? E a música que enche o ambiente com uma melodia que faz Paris ser diferente das demais cidades?

Meia-noite em Paris e a chuva cai deliciosamente sobre a cidade adormecida…Não consigo evitar que o filme me venha à mente mas a verdade é que à meia-noite em Paris nós nos deliciávamos é com o clima enquanto procurávamos uma conveniência aberta. Sim, Paris é diferente quando se tem 25 anos e viaja com amigos. O restaurante glamouroso se transforma em conveniência, o champagne em cerveja, o acompanhante em hóspedes do albergue e a música que enche o ambiente sai do seu Ipod.

Sair à noite em Paris é extremamente caro. Você deve pagar para entrar na discoteca e chora ao sair quando descobre que cada copo de cerveja te custou 10 euros, no mínimo. É por isso que francês faz festa em casa. É por isso que procurávamos uma conveniência. Nada como entrar no clima e cair de cabeça na cultura local.

Após 4 horas de sono o despertador dispara e você rola para o lado pensando que deveria ser proibido exigir check-out às 09:00 da manhã. Mas tudo bem, você está em Paris e tem mais é que aproveitar e nada melhor que começar o dia com um belo banho. Aquele sorriso maroto no rosto desaparece completamente ao descobrir que num albergue enorme há apenas um banheiro com chuveiro. Só podia ser na França…Volto para o quarto e descubro que o wi-fi não funciona e então, só para fazer valer os 15 euros pagos, voltei para cama.

De mochilas nas costas voltamos a desbravar Paris e, após muitas descobertas e uma deliciosa caminhada às margens do Reno, nos dirigimos em direção à casa do francês que aceitou nos hospedar por uma noite. Já comentei sobre couchsurfing e como funciona e para quem pretende viajar sem gastar muito dinheiro e conhecer pessoas é a melhor opção.

No dia seguinte, ao acordar, eu só conseguia pensar em banho. Fui em direção ao banheiro como uma criança vai em direção ao pote de doce e antes mesmo de abrir a torneira já me sentia mais leve. Até que eu abri a torneira. O máximo que me exponho aqui é contar que tomei banho sentada porque se levantasse a força da água seria suficiente para lavar somente meus pés.

Mesmo assim, ou por isso mesmo, me senti completamente renovada para mais um dia de turista em Paris e, deitada nas cadeiras espalhadas ao redor do Palácio de Versailles, eu e minha amiga nos demos conta de que realmente estando desfrutando de nossas vidas.

Viajar, conhecer lugares e pessoas diferentes, comer e beber, se hospedar por 15 euros e pedir sofá para pessoas que se conectam pelo simples prazer de compartilhar momentos é uma incrível maneira de ganhar dias de vida. As memórias que se perduram no tempo é apenas um bônus que se conquista ao fazer valer o ar que respira.

P.S. Muito melhor se à meia-noite em Paris.

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Uma resposta para Meia-noite em Paris

  1. Confesso que precisei parar para relembrar a experiência com o banheiro lá após sua descrição! O que também me faz lembrar velhas histórias e filmes onde banhos eram somente aos sábados. E ainda… onde se fazem os melhores perfumes do mundo. Para eliminar essas más impressões nada como se divertir no Louvre, ou ver a Torre a piscar à noite, mesmo debaixo de garoa!

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