Depoimento de um Viciado

E chega uma hora que você realmente percebe que tem algo diferente em você. Seus amigos notam, sua família nota. E comentam, “você tá mudado, cara.”

Aos poucos você vai se afastando mais e mais dos amigos, não sai mais, recusa festas, encontros, tudo por aquilo que lhe traz prazer.

Segue focando no trabalho, mas contando os dias para aquilo acontecer, não suporta estar na frente do computador, mas sabe que precisa do dinheiro pra poder pagar por cada vez, cada dose.

Você acaba afundando, vivendo em função daquilo. Acorda pensando, imaginando quando será a próxima vez, passa madrugadas planejando, projetando. E a ansiedade vai aumentando cada vez que passa um dia, menos um dia pra mais uma dose.

Até que o dia chega, na noite anterior você não dorme, fica imaginando como será, mentalizando a sensação. E isso já dá uma amostra do que sentirá lá.

Até o momento em que chega na beirada…

Suas pernas tremem, seu coração dispara, suas pupilas dilatam… Aí você pula.

O vento na cara, o silêncio, a paz. Sua dose de adrenalina e uma nova experiência está sendo dada. Em seu rosto um sorriso involuntário brota, sinal de felicidade, felicidade verdadeira. O fato de poder morrer já não faz diferença, é até mais excitante. Sambar na tênue linha que separa a vida da morte lhe leva ao extase.

Percebe que as noites em claro debruçado em cima de mapas e planilhas não foram em vão. Que o tempo perdido na frente do computador, cumprindo as oito horas diárias em troca de um salario (que foi usado inteiramente para isso) valeram a pena.

Mas você quer mais velocidade, mais diversidade, mais altura ou ir mais longe. Novas culturas, novas pessoas, novas línguas.

–       Mais intensidade, por favor.

–       Endorfina acompanha?

Com certeza! E quanto mais melhor.

Nada se compara em subir cada vez mais alto, ir mais longe, cada vez em piores condições. O barato está na dificuldade.

Nada se compara em sentir-se vivo, cuspindo na face da morte e quebrando a monotonia do comum, da rotina e do normal.

A boca seca, a pele empalidece, o estomago contrai e os pelos eriçam. Em seguida o alívio, a satisfação, a superação.

E quem sabe daqui algum tempo eu me veja sentado em uma sala escura, com mais meia dúzia de malucos, alguns tatuados, cabeludos e gente da pior espécie sentados em cadeiras, formando um círculo.

Olho cada um no fundo dos olhos sabendo que já partilharam de experiências semelhantes, que sentiram o mesmo prazer que eu e falo: “Oi, meu nome é Ric e sou viciado em adrenalina.”

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Sobre Vagabundo Profissional

“Muitos pensam que sou rico. Outros pensam o contrário. O que ninguém sabe é que minha riqueza é medida em histórias, em experiências e pessoas. Sim, sou rico. Porque viajei o mundo sem um único centavo no bolso. Sim, sou rico. Por causa das pessoas que conheci. Mas acima de tudo, sou rico, por que descobri o verdadeiro significado da vida.” (Fergal Smith)
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Uma resposta para Depoimento de um Viciado

  1. Rívika disse:

    Também me lembro muito bem de sentir minhas pernas tremerem, meu coração disparar e de olhos bem abertos PULAR!

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